sábado, 26 de setembro de 2009

PELAYO PÉREZ CORREA

D. Paio Peres Correia é uma grande figura peninsular. Em Espanha a sua acção foi muito mais relevante do que a que desenvolveu em Portugal. Lá, é conhecido como Pelayo (ou Pelay) Pérez Correa. Quem procurar este nome no Google, verifica que ele ocorre muito mais em espanhol que o seu correspondente português.

Em Segura e no Reino de Múrcia

Volvidos cerca de dez anos sobre a entrada de Paio Peres Correia na Ordem da Cavalaria de Sant’Iago, esta confiou-lhe maiores responsabilidades. Desde 1241, encontramo-lo em Castela. Em 1242, é já Mestre de Uclés e actua sob o comando do Grão-Mestre Rodrigo Iñiguez. Em finais do ano, assume, ele próprio, em Mérida, o Grão-Mestrado da Ordem, o que o vai tornar um dos homens mais influentes da Península e o porá em convívio assíduo com reis e príncipes. Paio Peres Correia terá algo mais que trinta anos. O príncipe Afonso de Castela tem menos dez a quinze. Entre eles, vai gerar-se uma estreita amizade, a ponto de, em 5 de Setembro de 1243, o príncipe, ainda solteiro, prometer confiar-lhe a criação do primeiro filho que viesse a ter. Paio Peres Correia passará a estar a seu lado em todas as iniciativas bélicas.
Sobre este período da vida de Paio Peres Correia, escreve José Mattoso[1]:
Coberto de glória devido aos seus triunfos militares, foi depois solicitado para outras empresas guerreiras na Andaluzia. De facto, encontramo-lo desde 1243 junto do infante D. Afonso de Gastela, o futuro rei Afonso X, o Sábio, que nesse ano comandou as tropas castelhanas que conquistaram Múrcia. Provavelmente também o acompanhou no ano seguinte, na conquista de Lorca e de Mula, povoações que pertenciam ao mesmo reino e não se entregaram juntamente com a capital. Encontramo-lo depois com o infante Afonso de Molina na conquista de Aljarafe, em 1245, nas conquistas contra o rei de Niebla, em 1247, e finalmente no cerco de Sevilha, onde desempenhou um papel do maior relevo, ao lado das tropas de Fernando III e de muitos portugueses (...)


A pprimeira vez que a Historia de España [2] nos apresenta Paio Peres Correia em acção mostra-no-lo ao lado do seu superior hierárquico, Mestre Rodrigo Iñiguez, em 21/8/1242, a receber de Fernando III «a vila e o castelo de Segura com seus termos, com os que tinha e os que devia ter, mas excluía as vilas pertencentes ao reino de Múrcia, e os termos que tinham os concelhos de Riopal, Alcaraz, Baeza e Úbeda, assim como as que eram do reino de Jaén»[3].
Segura tornar-se-ia o ponto de apoio para o avanço sobre Múrcia.
E a Historia de España continua, apontando a magnitude das dádivas que à mesma Ordem iam sendo concedidas, agora já sob a direcção superior de Paio Peres Correia[4]:
Eram razoáveis tais excepções, pois já se tinha iniciado a penetração castelhana por outra parte. Realmente a Ordem não o sentiria ante a magnitude das perspectivas. Por um lado, obteve de Fernando III, outorgando-lho o infante herdeiro em 15 de Fevereiro de 1243, a doação da vila de Galera, junto a Huéscar, como prémio pela participação na conquista de Chinchilla; incluía as suas aldeias (Orce, Cazalla, Ytur, Cuevas de Almizra e Color).
Por outro lado, o infante confirmou, em 15 de Julho de 1243, à Ordem a doação de Segura e destes castelos já dados pelo rei Fernando: Moratalla, Socovos, Férez, Vicorto, Letur, Pliego, Abejuela, Liétor, Ayna, Benizar, Nerpio, Taibilla, Yeste, Agra, Catena, Albánchez, Huéscar, Miravete, Buleirola, Burgeia e Guta, todos eles com as suas aldeias povoadas ou por povoar.
As investidas contra o reino de Múrcia tinham começado em 1239. Nelas participaram muitos portugueses, além de Paio Peres Correia. É o caso, por exemplo, do Infante Fernando de Serpa e dos conceituados parentes do Mestre de Sant’Iago Gonçalo Anes do Vinhal (genro do também activo guerreiro Gil Gomes) e Martim Anes do Vinhal, e do irmão de Paio Peres Correia, Gomes Peres Correia. Em Abril de 1241, conquistada já Chinchila, o rei Fernando III ordenou ao Mestre de Sant’Iago, Rodrigo Iñiguez, que efectuasse uma expedição a terra murciana — que acabará por ser terminada por Paio Peres Correia[5]:
Este achava-se a realizá-la em profundidade quando teve que suspendê-la em finais de Agosto, ao receber uma citação uma dos juizes apostólicos, devendo estar em Valhadolide a 11 de Setembro de 1241, para declarar num pleito que mantinha com o arcebispo de Toledo. Ao passar por Santa Cruz (de la Zarza) caiu enfermo, pelo que teve que delegar no comendador de Uclés (Paio Correia), segundo explicou: «como estivéssemos em terra de mouros além Múrcia com o nosso poder e com a nossa hoste por mandado de nosso senhor o rei, foi-nos dito»...
E continuamos a citar, para referir o nome de dois companheiros portugueses de Paio Peres Correia:
Talvez nessa campanha actuasse com certa autonomia Gil Gomes, o qual ganhou um castelo, entre outros; el-rei Fernando, em 3 de Fevereiro de 1242, deu-lhe o castelo de Yéchar, próximo de Mula, junto com os de Vicorto, Guta e Abejuela, que havia ganhado na Serra de Segura. Gonçalo Anes do Vinhal, sobrinho de Gil Gomes, também participou na guerra.
Voltando à Ordem de Sant’Iago e ao seu Mestre, continua a nossa fonte:
Por sua parte, o infante D. Afonso, a 13 de Fevereiro de 1243, agradeceu à Ordem de Sant’Iago a ajuda prestada antes, na conquista de Chinchilla e de outros castelos, e doou a vila de Galera. Múrcia rendeu-se ainda em Fevereiro de 1243.
A Crónica Geral de Espanha de 1344 fala-nos assim deste acontecimento[6]:
Depois que o iffante se partio de seu padre, foisse a Toledo. E, en se querendo partir dhi pera a frontarya, chegaron messegeiros de Abehudiel, rey de Murça, e hyam con embaixada a el rey dom Fernando, em que lhe mandava dizer que lhe darya o reyno de Murça con todas suas villas e castellos con certa preitesia. O iffante, quando vyo os messegeiros e vyo sua embaixada e a preitesya qual era non os leixou hir mais adeante. E outorgoulhes a preitesia en nome de el rey seu padre e fezeos logo tornar e foysse empos elles. E quando chegou en Alcara, tornaraõ aquelles messegeiros del rei Abehudiel a el con sua preitesya firmada por el e outorgada por todos seus sogeitos. E desi firmaron bem seu preito e foisse o iffante dom Affonso con elles e hya com elle o meestre dom Paae Correa e Ruy Gonçalvez Girom e outros muitos fidalgos. E os mouros entregaron o alcacer de Murça ao iffante com todallas outras fortellezas e couzas que lhe prometeron, segundo em suas preitesias era contehudo.
Vê-se que, na hora de estudar as condições do pacto, o infante Afonso de Castela não dispensou o conselho do seu sagaz e dedicado companheiro de armas.
Entre os castelos que agora se entregavam, estava Cieza, de cuja tenência havia de ficar responsável Gomes Peres Correia, irmão do Mestre de Sant’Iago.
Entretanto, verificou-se por terras de Múrcia uma situação grave de carestia alimentar. Isso vai motivar outra intervenção do Paio Feres Correia[7]:
E, estando ally, chegou o iffante dom Afonso que vinha do reyno de Murça onde fora, segundo dissemos. E el rey ouve con elle muy gram prazer. E partiosse logo dalli e seu filho con elle. E foronse a Burgos e fez entom poer veeo a sua filha dona Biringella nas Olgas de Burgos.E, feito esto, mandou el rey guisar o iffante dom Affonso e envyouho ao reyno de Murça cõ grandes arracovas carregadas de viandas e con elle o meestre dom Paae Correa.
Paio Peres Correia continua ao lado do infante. E vão agora tomar Mula.
Conta a mesma Crónica[8]:
E, depois que as estragou (Mulla, Lorca e Cartagena), ouve conselho con o meestre dom Paae Correa e con outros cavaleiros que andavon con elle se hyria cercar Mulla e acordaron todos que sy, ca elles sabyam bem como o logar estava minguado de mentiimentos. E tanto os cõbateo e afficou e por a gram fame que os de dentro avyam, que se ouveron de dar e meter en poder dos cristaãos.
Viu-se atrás que Paio Peres Correia acompanhou, em 1245, o infante Afonso de Molina na conquista do Aljarafe, mas sabe-se igualmente que ele surge de novo na conquista de Jaén, no ano seguinte. O parágrafo da Crónica Geral de Espanha que se segue mostra-nos o Mestre de Sant’Iago ao lado de Fernando III, que lhe requer conselho sobre como prosseguir a guerra[9]:
E, en estando hy (o rei D. Fernando III, em Martos), chegou o meestre dom Paae Correa que viinha do reyno de Murça, onde leixara o iffante dõ Afonso, segundo ja ouvistes, e prougue muyto a el rey con sua viinda. E ouve con elle conselho que maneyra teerya en sua guerra, ou qual logar cercaryam primeiro. E o meestre lhe conselhou que fosse cercar Geen. E el rey teveo por boon conselho e desi acordarõ logo como a fossem cercar e como lhe posessem suas bastidas e quantos ricos homeens e concelhos stevessem continuadamente no cerco e quanto tempo cada huuns.
(1) Op. cit., pág. 562.
(2) Referimo-nos à Historia de España Menéndez Pidal, tomo XIII, vol. 1º e 2º, cujas citações vamos sempre traduzir.
(3) 1º vol., pág. 58.
(4) Ibidem.
(5) Ibidem, págs. 60-61.
(6) Vol. IV, cap. DCCCXII.
(7) Op. cit., págs. 430-431.
(8) Ibidem, pág. 434.
(9) Págs. 436-437.


Na primeira imagem, Paio Peres Correia no retábulo do altar-mor do Mosteiro de Tendudia, pró
ximo de Sevilha (uma fotografia melhor desta imagem encontra-se aqui e com a particularidade de poder ser vista por secções); na segunda, fragmento inicial de um documento de Afonso X em cuja segunda linha, final, e terceira, início, se lê: «dom Pelay Pérez maestre la Orden de la Caballería de Santiago», isto é, «D. Paio Peres (Correia), mestre da Ordem da Cavalaria de Sant’Iago»; na terceira, Catedral de Múrcia; na quarta, croqui da Penísnsula Ibérica onde se assinalam lugares diversos a que ficou ligado o nome de Paio Peres Correia; e na última, Castelo de Jaén.
Fonte: Historia de España Menéndez Pidal

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