sábado, 26 de setembro de 2009

A CAMINHO DO SUL

Em 1239, Sancho II doa à Cavalaria de Santiago, na pessoa do seu comendador, Mértola, Aiamonte e Alfajar de Pena. Para a doação de Mértola, fez escrever o rei(1):
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amen.
Saibam todos que esta carta virem que eu, Sancho II, por graça de Deus rei de Portugal, por minha boa e livre vontade, e por acordo e parecer dos meus fidalgos e ricos-homens e pelo óptimo serviço que me prestaram D. Paio Peres Correia, comendador de Alcácer, e os freires do mesmo castelo da Ordem de Santiago, e como meio de salvação da minha alma, da do meu pai, da da minha mãe e dos meus predecessores, lhes dou e concedo à Ordem de Santiago o meu castelo de Mértola, com todos os seus termos (...)
Entretanto, Paio Peres Correia tinha deslocado para esta povoação a parte da Ordem que dele dependia. Mértola era realmente um lugar apropriado para dirigir a luta a sul (2).

(1) Original em latim:
In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti amen. Notum sit omnibus hanc litteras pecturis quod ego Sanctius Secundus Dei gratia rex Portugal de mea bona et libera uoluntate et de consensu et autoritate meorum preceptorum et magnatum et promulto bono seruitio quod mii fecerunt donus Pelagius Petri Corrigia comendador de Alcaçar et fratres eiusdem casta Ordinis Milicie Sancti Jacobi et pro remedio anime mee et patris mei et matris mee et predecesorum meorum do et concedo eis et ordini Milicie Sancti Jacobi castellum meum de Mertola cum omnibus terminis suis (...)
(2) Em 1254, Paio Peres Correia concedeu foral a Mértola. Eis a parte inicial do documento:
In nomine sancte et indiuidue trinitatis Patris et filii et spiritus sancti. Amen.

Esta he a carta de foro qual encomendamos a fazer, Eu dom paay periz pela graça de deus Meestre da ordem da cauallaria de Santiago em sembra com Dom gonçalo periz Comendador de mertola e com ho conueento desse meesmo logo a vos pobradores de mertola assi aos presentes como aos que ham de viir: damos a uos foro e costume deuora por terra, e de lixbooa pelo riio e pello mar (...)

Na imagem, Matriz de Mértola (antiga mesquita) e Castelo.

UMA CANTIGA CONTRA D. PAIO PERES CORREIA

Paio Peres Correia tem um lugar na poesia. Lembra-o Camões em Os Lusíadas (Canto VIII, est. 26-27), aproveita-o Garrett na D. Branca e também inspirou poetas espanhóis.
A cantiga que aqui vamos colocar é um caso especial, já que não só lhe é contemporânea, mas comenta – depreciativamente – um momento da sua vida, o da eleição para Mestre da Cavalaria de Santiago. A versão que adopto é a de Graça Vieira Lopes em «Rostos Literários da Nobreza». O autor, Pêro Mendes da Fonseca, espatário dos arredores de Alcácer do sal, certamente por inveja, ridiculariza Paio Peres Correia, por ignorante e bisonho. Ocrês é Uclés, sede da Cavalaria de Sant’iago.

Chegou Paio de más artes
com seu cerame de Chartes;
e nom leeu el nas partes
que chegasse há um mês
e do lũes ao martes
foi comendador d' Ocrês.

[A]ssemelha-me busnardo,
vind' em seu ceramem pardo;
e, u nom houvesse reguardo
em nem um dos dez e três,
log' houve mant' e tabardo
e foi comendador d' Ocrês.

E chegou per ũa 'strada,
descalço, gram madurgada:
u se nom catavam nada
d' ũũ hom' atam rafez,
cobrou manto com espada
e foi comendador d' Ocrês.

Na imagem, cantiga de Pêro Mendes da Fonseca segundo a cópia quinhentista do Cancioneiro da Biblioteca Nacional.

PAIO PERES CORREIA NA CONQUISTA DE TAVIRA

Paio Peres Correia é o protagonista da Crónica da Conquista do Algarve, obra que o imortalizou como herói nacional. Veja-se como ele se assenhoreou de Tavira:
Enquanto os cristãos pelejaram, chegou recado ao mestre a Cacela, onde estava, e cavalgou logo com suas gentes o mais apressadamente que pôde por lhes acorrer, porque bem sabia que outra míngua não havia de passar por eles senão vencer ou morrer; e trouxe o caminho que eles trouxeram. E entrou pela porta da vila, e passou pela praça sem nenhuma contradição, e tão cioso ia por lhes socorrer que não houve sentido de tomar a vila, que bem pudera tomar se quisesse.

E quando chegou às antas e viu os cavaleiros mortos, começou com os mouros mui dura peleja; e morreu tanta gente deles que ainda hoje em dia jaz ali a ossada deles; e desde que os venceu, seguiu o alcance fazendo grande estrago em eles.
Os mouros que estavam na vila, quando o mestre por ela passou, foram espantados de sua vinda e não cuidaram que o mestre sabia disto parte e mui à pressa cerraram as portas temendo-se do que depois se seguiu. E quando os viram assim vir fugindo não lhes ousaram abrir as portas e saíram para os recolher dentro e abriram-lhes uma porta escusa que está contra a mouraria; e os Cristãos deram ali com eles e não havendo em si acordo de se defenderem, entrou o mestre com eles de volta e cobrou a vila e apoderou-se dela; e foi estranha a mortandade que o mestre e os seus fizeram em os mouros e também nos da vila, como nos que morreram fora.

E não consta se o Abem Fabila, mouro senhor deste lugar, foi em esta batalha e morreu em ela ou se ficou no lugar e o que se fez dele.
Foi esta batalha e os mouros mortos em Tavira ganhada aos mouros aos onze dias de Junho, por dia de São Barnabé, na era de mil e duzentos e quarenta e dois anos.
Tomada a vila, a deixou o mestre segura e tornou com muita gente às antas onde jaziam os cavaleiros mortos e com grandes gemidos e dor os tiraram dentre os mouros, que jaziam os corpos deles lançados no sangue, com as espadas nuas; e trouxeram-nos à vila e fizeram na mesquita-mor Igreja de Santa Maria. E mandou o mestre fazer um monumento em que pôs sete escudos com as vieiras do Senhor Santiago e ali foram soterrados todos seis e o mercador com eles, os nomes dos quais são os que se seguem: dom Pêro Paes, comendador-mor, Mem do Vale, Damião Vaz, Álvaro Gracia, Estêvão Vaz, Valério de Ossa e o mercador Gracia Rodrigues, cujos corpos foram depois tidos em grande relíquia e reverência e devoção, como a mártires que espargiram seu sangue por honra da fé de Jesus Cristo.

Imagem de cima, trecho das muralhas do Castelo de Tavira; imagem de baixo, placa toponímica na mesma cidade.

NA CONQUISTA DE SILVES

A Silves árabe fora a cidade mais rica e mais culta do Algarve. O seu porto — pois o mar quase chegava aos muros — era movimentado. Em 1189, um cruzado declarou-a dez vezes mais rica que Lisboa.
A Crónica da Conquista do Algarve conta também como ela foi tomada por Paio Peres Correia.
No castelo foram descobertas umas ossadas que os arqueólogos afirmam ser de um homem morto na tomada da cidade.
Por esta guisa que haveis ouvido, aprouve a Deus de dar a vila de Tavira em poder dos Cristãos; e depois que a deixou o mestre segura de todo o que lhe cumpria, foi a Selir e tomou-o por força e então foi cercar Paderne, que é um castelo forte e mui bom, de grão comarca, em redor de Albufeira e a serra; e estando sobre ele, mandou gente ao termo de Silves que fossem tomar a torre de Estômbar, que dantes fora sua. E foram lá e houveram-na outra vez, e quando Alamafom, seu Rei deles, que estava em Silves, soube como aquelas companhas ali eram, saiu a eles do lugar com a mais companha que pôde, porque lhe disseram que estava ali o mestre com todo o seu poder; e o mestre, como soube que era fora, alçou-se logo de sobre Paderne e veio-se lançar sobre Silves. Alamafom, indo para a torre de Estômbar, achou novas que não era ali o mestre e que não estava ali mais gente que aquela que tomara a torre e a defendiam; porém, quis lá chegar e logo mui à pressa se tornou para a vila e logo se temeu do que era, e o mestre lançou-lhe uma cilada que lhe tinha já tomado as portas e as gentes repartidas por elas. E El-Rei Alamafom, quando isto viu, querendo entrar por força por a porta que chamam de Zóia, porque era lugar desembargado, encontrou-se ali com o mestre, que tinha a guarda dela; e el-Rei mouro vinha com todos os seus juntos e ali se viu o mestre com grande trabalho com eles e foi a peleja em um campo fora, junto com a vila, onde ora está uma igreja que se chama Santa Maria dos Mártires, e os mouros fizeram muito por cobrar a porta e se meteram sobre a torre de Zóia, porque é bem saída e marcos para fora. Mas isto não lhe prestou nada, porque os Cristãos andavam em volta com eles e assim entraram com eles pela porta da vila; e ali foi a peleja tão grande em guisa que mais Cristãos morreram ali que em outro lugar que se no Algarve tomasse. E El-Rei mouro andou pela vila em redor e quisera-se acolher pelo postigo da traição a um alcácer em que ele morava e achou o postigo embargado. Foi para se acolher por outra porta da vila e achou-a cerrada e então, de desesperação, deu de esporas ao cavalo e fugiu e passando por um pego afogou-se ali. E o acharão depois morto e agora chamam àquele lugar o Pego de Alamafom.
Dos mouros que ficaram ao alcácer e o trabalharam de o defender quanto podiam e o mestre não o quis combater que segurou-os que viessem à vila se quisessem e aproveitassem suas herdades e lhe conhecessem aquele senhorio que conheciam ao Rei mouro, e assim fez aos outros lugares que tomou e não combatiam os alcáceres em que se os mouros recolhiam mas segurava-os a que vivessem nas terras por serem aquelas aproveitadas e depois ali edificada uma igreja catedral e foi feita a cidade.
Então se tornou o mestre a Paderne, que antes tivera cercada, e tomou a vila e o castelo por força e não se pleitearam com eles matando os mouros por dois cavaleiros freires que aí mataram. Esta vila de Paderne se mudou naquele lugar que agora chamam Albufeira, porém ainda a outra está murada e corrigida com seu castelo e uma cisterna mui boa dentro.
Almeida Garrett aproveitou este episódio para a sua D. Branca, onde entra Alamafom.Imagem ao cimo, Silves com o seu castelo; segunda imagem, placa da Rua D. Paio Peres Correia em Silves; terceira, a tomada de Paderne, ilustração do romance The Lord of Paderne de Pedro Oliveira Pinto (a quem a agradecemos).

GUERRA CIVIL

Em 1245, quando o rei português Sancho II é declarado pelo Papa incapaz de governar, «rei inútil», Paio Peres Correia está ao serviço de Castela. O mesmo Papa nomeia para curador e defensor do reino o Conde de Bolonha, irmão de Sancho II. Quando este desembarcou em Lisboa, em fins de Dezembro de 1245, acorreu a recebê-lo o subordinado de Paio Peres Correia, Gonçalo Peres Magro, comendador de Mértola. Vão seguir-se três anos agitadíssimos de guerra civil. O rei de Castela, Fernando III, e o seu herdeiro apoiarão Sancho II. Paio Peres Correia acatará as instruções papais, recusando-se a apoiar quem não governava e colocando o seu prestígio ao serviço do Conde de Bolonha. Outro tanto terão feito diversos membros da família Correia, alguns dos quais eram companhia constante do Mestre de Sant’Iago nas lides da reconquista.
Por fim, Sancho II, exilado em Toledo, morre em 1248.
O pouco escrupuloso Afonso III, apesar de casado com Matilde de Bolonha, por quem recebera o título de conde, negoceia um escandaloso casamento com uma bastarda do infante de Castela, ainda criança. E o caminho para a pacificação entre os dois Afonsos peninsulares. Uma pacificação que não vai ser definitiva tão cedo e para que há-de ser chamado a dar o seu contributo o Mestre de Sant’Iago.

De novo no Algarve

Henrique David e José Augusto P. de S. M. Pizarro são de opinião que, logo no ano que se seguiu à tomada de Sevilha, Paio Peres Correia se teria encontrado ao lado de Afonso III, quando da conquista de Faro, em acordo, de resto, com o que ensina a Crónica da Conquista do Algarve. A resolução definitiva das reivindicações comuns dos dois reis Afonsos sobre o Algarve ocorreu apenas depois da submissão de Niebla, quando Afonso III, já genro de Afonso X, lhe envia a Sevilha o infante herdeiro, Dinis, de quatro anos. Paio Peres Correia fez parte da equipa que em Abril de 1263 estudou e deslindou em definitivo a situação.
Mas o Algarve vai ser ainda preocupação de Paio Peres Correia quase até ao termo da sua vida. De facto, seguindo uma política de libertar a Algarve de toda a ingerência de Castela, Afonso III conseguiu que a Ordem de Sant’Iago renunciasse, em 1272, aos seus castelos de Tavira, Cacela e Castro Marim, aparentemente sem contrapartidas. Tenha-se em conta que em Portugal não havia mais terreno mouro a reconquistar e que a sede desta Ordem era em Castela. Paio Peres Correia é quem assume a renúncia, como consta do respectivo documento, datado de 7 de Janeiro 1272, e que é uma Carta de Renúncia da Ordem de Uclés feita a El-Rei sobre Tavira, Cacela e Castro Marim com seus termos.[1]

[1] É esta a carta:
Carta Renunciationis Ordinis d’Ocles facte domino Rege super Tavira Caçala et Castro Marim cum suis terminis.
Noverint universi presentem cartam inspecturi quod nos domnus Pelagius Magister Ordinis Milicie Sancti Jacobi et Johannes Reymondi Comendator de Cacem et procurator Capituli eiusdem Ordinis nomine nostro et Ordinis supradicti renunciamus donationibus super Tavira Caçala Castro Marim cum terminis suis nobis a regibus Portugalie factis vel a quocumque alio si fieri potuerint et confirmationibus a domino Papa vel ab aliquibus aaliis super predictis locis factis et omnibus instrumentis litteris juribus actionibus nobis et Ordini super supradictis locis quoad temporalia competentibus et promitimus sub pena decem milium marcorum puri et examinati argenti prout in sententiam lata per viros predictos et discretos dominum Gomecium dictum Legum canonicum Zamorensem religiosum virum fratrem Geraldum doctorem Fratrum Predicatorum Ulixbonensem et Dominicum Johannis canonicum Elborensem plenius continetur nos nec Ordinem nostrum non venire contra dictam sententiam nec contra aliquem articulum de his que in ipsa sentencia continetur retento tamen nobis et Ordini nostro jure patronatus in locis omnibus supradictis.
Datum Ulixbone VII die Januarii Era Mª CCCª X.

Fr. Diogo Brandão, Monarchia Lusitana, IV parte, apêndice.

PELAYO PÉREZ CORREA

D. Paio Peres Correia é uma grande figura peninsular. Em Espanha a sua acção foi muito mais relevante do que a que desenvolveu em Portugal. Lá, é conhecido como Pelayo (ou Pelay) Pérez Correa. Quem procurar este nome no Google, verifica que ele ocorre muito mais em espanhol que o seu correspondente português.

Em Segura e no Reino de Múrcia

Volvidos cerca de dez anos sobre a entrada de Paio Peres Correia na Ordem da Cavalaria de Sant’Iago, esta confiou-lhe maiores responsabilidades. Desde 1241, encontramo-lo em Castela. Em 1242, é já Mestre de Uclés e actua sob o comando do Grão-Mestre Rodrigo Iñiguez. Em finais do ano, assume, ele próprio, em Mérida, o Grão-Mestrado da Ordem, o que o vai tornar um dos homens mais influentes da Península e o porá em convívio assíduo com reis e príncipes. Paio Peres Correia terá algo mais que trinta anos. O príncipe Afonso de Castela tem menos dez a quinze. Entre eles, vai gerar-se uma estreita amizade, a ponto de, em 5 de Setembro de 1243, o príncipe, ainda solteiro, prometer confiar-lhe a criação do primeiro filho que viesse a ter. Paio Peres Correia passará a estar a seu lado em todas as iniciativas bélicas.
Sobre este período da vida de Paio Peres Correia, escreve José Mattoso[1]:
Coberto de glória devido aos seus triunfos militares, foi depois solicitado para outras empresas guerreiras na Andaluzia. De facto, encontramo-lo desde 1243 junto do infante D. Afonso de Gastela, o futuro rei Afonso X, o Sábio, que nesse ano comandou as tropas castelhanas que conquistaram Múrcia. Provavelmente também o acompanhou no ano seguinte, na conquista de Lorca e de Mula, povoações que pertenciam ao mesmo reino e não se entregaram juntamente com a capital. Encontramo-lo depois com o infante Afonso de Molina na conquista de Aljarafe, em 1245, nas conquistas contra o rei de Niebla, em 1247, e finalmente no cerco de Sevilha, onde desempenhou um papel do maior relevo, ao lado das tropas de Fernando III e de muitos portugueses (...)


A pprimeira vez que a Historia de España [2] nos apresenta Paio Peres Correia em acção mostra-no-lo ao lado do seu superior hierárquico, Mestre Rodrigo Iñiguez, em 21/8/1242, a receber de Fernando III «a vila e o castelo de Segura com seus termos, com os que tinha e os que devia ter, mas excluía as vilas pertencentes ao reino de Múrcia, e os termos que tinham os concelhos de Riopal, Alcaraz, Baeza e Úbeda, assim como as que eram do reino de Jaén»[3].
Segura tornar-se-ia o ponto de apoio para o avanço sobre Múrcia.
E a Historia de España continua, apontando a magnitude das dádivas que à mesma Ordem iam sendo concedidas, agora já sob a direcção superior de Paio Peres Correia[4]:
Eram razoáveis tais excepções, pois já se tinha iniciado a penetração castelhana por outra parte. Realmente a Ordem não o sentiria ante a magnitude das perspectivas. Por um lado, obteve de Fernando III, outorgando-lho o infante herdeiro em 15 de Fevereiro de 1243, a doação da vila de Galera, junto a Huéscar, como prémio pela participação na conquista de Chinchilla; incluía as suas aldeias (Orce, Cazalla, Ytur, Cuevas de Almizra e Color).
Por outro lado, o infante confirmou, em 15 de Julho de 1243, à Ordem a doação de Segura e destes castelos já dados pelo rei Fernando: Moratalla, Socovos, Férez, Vicorto, Letur, Pliego, Abejuela, Liétor, Ayna, Benizar, Nerpio, Taibilla, Yeste, Agra, Catena, Albánchez, Huéscar, Miravete, Buleirola, Burgeia e Guta, todos eles com as suas aldeias povoadas ou por povoar.
As investidas contra o reino de Múrcia tinham começado em 1239. Nelas participaram muitos portugueses, além de Paio Peres Correia. É o caso, por exemplo, do Infante Fernando de Serpa e dos conceituados parentes do Mestre de Sant’Iago Gonçalo Anes do Vinhal (genro do também activo guerreiro Gil Gomes) e Martim Anes do Vinhal, e do irmão de Paio Peres Correia, Gomes Peres Correia. Em Abril de 1241, conquistada já Chinchila, o rei Fernando III ordenou ao Mestre de Sant’Iago, Rodrigo Iñiguez, que efectuasse uma expedição a terra murciana — que acabará por ser terminada por Paio Peres Correia[5]:
Este achava-se a realizá-la em profundidade quando teve que suspendê-la em finais de Agosto, ao receber uma citação uma dos juizes apostólicos, devendo estar em Valhadolide a 11 de Setembro de 1241, para declarar num pleito que mantinha com o arcebispo de Toledo. Ao passar por Santa Cruz (de la Zarza) caiu enfermo, pelo que teve que delegar no comendador de Uclés (Paio Correia), segundo explicou: «como estivéssemos em terra de mouros além Múrcia com o nosso poder e com a nossa hoste por mandado de nosso senhor o rei, foi-nos dito»...
E continuamos a citar, para referir o nome de dois companheiros portugueses de Paio Peres Correia:
Talvez nessa campanha actuasse com certa autonomia Gil Gomes, o qual ganhou um castelo, entre outros; el-rei Fernando, em 3 de Fevereiro de 1242, deu-lhe o castelo de Yéchar, próximo de Mula, junto com os de Vicorto, Guta e Abejuela, que havia ganhado na Serra de Segura. Gonçalo Anes do Vinhal, sobrinho de Gil Gomes, também participou na guerra.
Voltando à Ordem de Sant’Iago e ao seu Mestre, continua a nossa fonte:
Por sua parte, o infante D. Afonso, a 13 de Fevereiro de 1243, agradeceu à Ordem de Sant’Iago a ajuda prestada antes, na conquista de Chinchilla e de outros castelos, e doou a vila de Galera. Múrcia rendeu-se ainda em Fevereiro de 1243.
A Crónica Geral de Espanha de 1344 fala-nos assim deste acontecimento[6]:
Depois que o iffante se partio de seu padre, foisse a Toledo. E, en se querendo partir dhi pera a frontarya, chegaron messegeiros de Abehudiel, rey de Murça, e hyam con embaixada a el rey dom Fernando, em que lhe mandava dizer que lhe darya o reyno de Murça con todas suas villas e castellos con certa preitesia. O iffante, quando vyo os messegeiros e vyo sua embaixada e a preitesya qual era non os leixou hir mais adeante. E outorgoulhes a preitesia en nome de el rey seu padre e fezeos logo tornar e foysse empos elles. E quando chegou en Alcara, tornaraõ aquelles messegeiros del rei Abehudiel a el con sua preitesya firmada por el e outorgada por todos seus sogeitos. E desi firmaron bem seu preito e foisse o iffante dom Affonso con elles e hya com elle o meestre dom Paae Correa e Ruy Gonçalvez Girom e outros muitos fidalgos. E os mouros entregaron o alcacer de Murça ao iffante com todallas outras fortellezas e couzas que lhe prometeron, segundo em suas preitesias era contehudo.
Vê-se que, na hora de estudar as condições do pacto, o infante Afonso de Castela não dispensou o conselho do seu sagaz e dedicado companheiro de armas.
Entre os castelos que agora se entregavam, estava Cieza, de cuja tenência havia de ficar responsável Gomes Peres Correia, irmão do Mestre de Sant’Iago.
Entretanto, verificou-se por terras de Múrcia uma situação grave de carestia alimentar. Isso vai motivar outra intervenção do Paio Feres Correia[7]:
E, estando ally, chegou o iffante dom Afonso que vinha do reyno de Murça onde fora, segundo dissemos. E el rey ouve con elle muy gram prazer. E partiosse logo dalli e seu filho con elle. E foronse a Burgos e fez entom poer veeo a sua filha dona Biringella nas Olgas de Burgos.E, feito esto, mandou el rey guisar o iffante dom Affonso e envyouho ao reyno de Murça cõ grandes arracovas carregadas de viandas e con elle o meestre dom Paae Correa.
Paio Peres Correia continua ao lado do infante. E vão agora tomar Mula.
Conta a mesma Crónica[8]:
E, depois que as estragou (Mulla, Lorca e Cartagena), ouve conselho con o meestre dom Paae Correa e con outros cavaleiros que andavon con elle se hyria cercar Mulla e acordaron todos que sy, ca elles sabyam bem como o logar estava minguado de mentiimentos. E tanto os cõbateo e afficou e por a gram fame que os de dentro avyam, que se ouveron de dar e meter en poder dos cristaãos.
Viu-se atrás que Paio Peres Correia acompanhou, em 1245, o infante Afonso de Molina na conquista do Aljarafe, mas sabe-se igualmente que ele surge de novo na conquista de Jaén, no ano seguinte. O parágrafo da Crónica Geral de Espanha que se segue mostra-nos o Mestre de Sant’Iago ao lado de Fernando III, que lhe requer conselho sobre como prosseguir a guerra[9]:
E, en estando hy (o rei D. Fernando III, em Martos), chegou o meestre dom Paae Correa que viinha do reyno de Murça, onde leixara o iffante dõ Afonso, segundo ja ouvistes, e prougue muyto a el rey con sua viinda. E ouve con elle conselho que maneyra teerya en sua guerra, ou qual logar cercaryam primeiro. E o meestre lhe conselhou que fosse cercar Geen. E el rey teveo por boon conselho e desi acordarõ logo como a fossem cercar e como lhe posessem suas bastidas e quantos ricos homeens e concelhos stevessem continuadamente no cerco e quanto tempo cada huuns.
(1) Op. cit., pág. 562.
(2) Referimo-nos à Historia de España Menéndez Pidal, tomo XIII, vol. 1º e 2º, cujas citações vamos sempre traduzir.
(3) 1º vol., pág. 58.
(4) Ibidem.
(5) Ibidem, págs. 60-61.
(6) Vol. IV, cap. DCCCXII.
(7) Op. cit., págs. 430-431.
(8) Ibidem, pág. 434.
(9) Págs. 436-437.


Na primeira imagem, Paio Peres Correia no retábulo do altar-mor do Mosteiro de Tendudia, pró
ximo de Sevilha (uma fotografia melhor desta imagem encontra-se aqui e com a particularidade de poder ser vista por secções); na segunda, fragmento inicial de um documento de Afonso X em cuja segunda linha, final, e terceira, início, se lê: «dom Pelay Pérez maestre la Orden de la Caballería de Santiago», isto é, «D. Paio Peres (Correia), mestre da Ordem da Cavalaria de Sant’Iago»; na terceira, Catedral de Múrcia; na quarta, croqui da Penísnsula Ibérica onde se assinalam lugares diversos a que ficou ligado o nome de Paio Peres Correia; e na última, Castelo de Jaén.
Fonte: Historia de España Menéndez Pidal

NA CONQUISTA DE SEVILHA

É por iniciativa de Fernando III que, a partir de 1246, se iniciam os pre­parativos para o assalto a Sevilha. Será uma acção da maior envergadura. A Crónica Geral de Espanha, que segue um texto anterior da responsabilidade de Afonso X, destaca o papel de primeiro plano que aí desenvolveu o Grão-Mestre de Sant’Iago.
Esse papel verificou-se não só no teatro das operações, mormente na margem direita do Guadalquivir, mas no próprio conselho em que se decidiu a estratégia a adoptar. Veja-se a narrativa que regista o conselho de Fernando III, havido em Jaén, «com seus ricos homees sobre qual o logar hiria ou que maneira teerya na guerra»)[1]:

E a esto cada huu dava sua divisa, segundo seu entender. Mas o meestre dom Paae Correa e outros boos cavaleiros e muy sabedores de guerra disseron a el rey que fosse cercar Sevilha e que, se a cobrasse, que per ella cobrarya todo o al e que seria mais sen trabalho e con mais pequena custa e sem muyta lazeira d’alguus. Mas esto contradisseron outros, dizendo que Sevilha era logar grande e muy pobrado e que non seria muy ligeiro de cercar mas pero se el rey tal cousa quisesse cometer, que primeiro compria correr e estragar a terra per alguas vezes e, depois que a bem quebrantada tevessem e os mouros bem apremados, que entõ seria bem de a hir cercar. Mas o meestre dõ Paae Correa e os outros que primeiro conselharon o cerco de Sevilha disserõ a el rey que o tempo que posesse em corrimentos e fazer cavalgadas e cercar outros pequenos logares que melhor era de o poer sobre Sevilha e que, tomandoa, cobrava todo o al e que, por esta razon, melhor era de acabar todo per huu afam e per huu tempo que por muytos. E demais que poderia seer, se lhes dessem tal vagar, que elles se avisariã de guisa que seria depois muy forte cousa de começar e que por esto melhor seria de começar esto cedo que tarde. E, ditas estas palavras e outras muytas, acordousse el rey con todolos outros en este cõselho.
Em termos práticos, as coisas não foram tão simples como se depreenderia da proposta do Grão-Mestre de Sant’Iago. A Historia de España relata assim os preparativos do avanço sobre a grande cidade do Guadalquivir[2]:
O evidente era que se necessitava da cooperação de uma frota capaz e mais forças de terra suficientes, o que tudo exigia tempo e dinheiro. Por isso se aprazou o assédio para o ano de 1247.
Enquanto chegava o momento previsto, o rei não desperdiçou a estação para uma campanha preparatória. Saiu de Jaén em direcção a Córdova, na qual se documenta durante a segunda quinzena de Setembro de 1246. Depois de reunir as forças que pôde, iniciou a marcha para Carmona, e estragou o que achou fora de muros. Pus assédio a esta cidade e logo concorreu o rei de Granada. Coberto o objectivo de razziar aquela comarca, levantou o assédio retomando a marcha para Alcalá de Gadaira. Nesta fizeram impressão os danos causados pelos cristãos a Carmona, em consequência os muçulmanos decidiram entregar-se ao rei de Granada, o qual logo a deu ao de Castela.
D. Fernando ficou em Alcalá, reparando as defesas e abastecendo o castelo. Entretanto, enviou umas forças com o seu irmão o infante de Molina e com o mestre de Sant’Iago para correr o Aljarafe; e outras com o rei de Granada, o infante Henrique e o mestre de Calatrava para Jerez, com análogo fim. Cumpridas essas tarefas, o monarca cristão regressou a Córdova e logo a Jaén, preocupado com a morte de sua mãe, ocorrida a 8 de Novembro, cuja notícia tinha recebido em Alcalá. Finalmente, havia de enviar o seu irmão Afonso para que em parte a substituísse.

Por sua vez, a Crónica Geral de Espanha refere, como segue, os mesmos acontecimentos[3]:
E, depois que el rey dom Fernando estragou Carmona, foisse pera Alcalla. E os da villa, quando souberon que el rey de Graada viinha com el rey dom Fernando, sairon a elle e deronselhe. E elle deu logo o castello a el rey dom Fernando. Esteveron entõ aly alguuns dias e mandou el rey correr o Exarafe a dom Afonso, seu yrmãao, e ao meestre dõ Paae Correa. E mandou a el rey de Graada e a seu filho, dom Ãrrique, e ao meestre da Callatrava que fossem correr Exarez. E elle ficou em Alcala afortelegando o logar e bastecendo o castelo.
D. Fernando, já se viu, não se ocupou muito tempo com a morte de sua mãe. Dentro em pouco está de volta para o seu empreendimento. Submete Carmona, Cantolhana e Guilhena. Depois, embora doente, manda cercar Alaclá del Rio. Não foi tarefa fácil, mas a cidade acabou por se render.
Entretanto, a frota que vinha do Norte foi afrontada por «gram poder de Tamar e de Cepta e de Sevilha per mar e per terra». D. Fernando envia tropas em seu socorro; os mouros aliviam então a pressão sobre a frota, mas, logo que as tropas se afastam, caem de novo sobre ela. Os da frota, todavia, vencem as forças mouras.
Os Sevilhanos tentaram então barrar, no Guadalquivir, o caminho à frota e «sayron gram companha delles pera hyr contra Reymõ Bonifaz onde vinha pello ryo açima». Mas também aqui foram vencidos.
A Crónica Geral de Espanha dedica agora todo o seu capítulo DCCCXXV a Paio Peres Correia. Intitula-se ele: “Como o meestre pousou da outra parte do ryo so Esnalfarag».
Conta a estoria que dom Paae Correa, meestre da cavalaria de Santiago, com seus freires e outros segraaes que com elle acõpanhavõ que eram per todos duzentos e oiteemta cavaleiros, passou o ryo da outra parte e pousou so Esnalfarag, a grande perigo de sy e de suas gentes, ca mayor perigo era daquella parte que da outra de que pousava el rey, ca Abenafon, que a essa sazon era rei de Nevra, estava daquela parte e trabalhava quanto podya por os embargar. E estavam com elle todollos mouros dessa terra e eram tantos, antre os que hy estavam e os que lhe viinham em ajuda da parte do Exarafe, que era maravilha de veer. E por esta razon eram os cristãaos em grande afronta, ca nuca podyam folgar se nõ sempre estar com elles pelejando. E, pero que os cristãaos os vençiam e matavon deles muytos, os que ficavõ e os outros que creciam nunca os leixavã folgar.
Veendo el rey Fernando o gram perigoo em que estava o meestre dom Paae Correa e todollos que com elle erã, mandou allo passar dom Rodrigo Frolles e Afonso Tellez e Fernand’Yvanes. E estes tres levaron cen cavaleiros com os quaes forom muy bõos ajudadores ao meestre e seus freires.
Este Abenafon, aliás Ibn Mahfut, segundo José Mattoso, é um guerreiro que Paio Peres Correia conheceria já desde a campanha do Algarve. Parece ter sido adversário de monta.
A Crónica Geral de Espanha dedica longa série de capítulos ao cerco de Sevilha. Vamos reunir agora as referências que aí se fazem ao Grão-Mestre de Sant’Iago.
O capítulo DCCCXX VI dedica dois parágrafos aos seus feitos. Lê-se aí:
(...) o meestre dom Paae Correa e os outros ricos homees que com el estavon da outra parte do ryo, segundo ja ouvistes, cavalgarom sobre Golles e cõbaterõna e entrarõna per força e inataron todollos mouros que dentro acharom e levarõ muy grande algo que hy acharom. E, em se tornando per Tyriana, sayiu a elles gram cavalarya de mouros e muitos peõoes com elles e ouverõ com elles gram batalha. E foron os mouros vencidos e mortos muytos delles e os cristãaos tornarõsse muy hõrados pera seu arreal.
E, estando em elle, os mouros sahiam a elles cada dia muy amehude e seguyãnos muyto e fazianlhes grande dano em bestas e homees de pee. Mas o meestre e os outros ricos homeens deitaraonlhe hua cilada. E os mouros, sayndo como suyam, trabalharon por se poer a salvo. Mas, ante que se acolhessem, ficarõ hy trezentos mortos e muytos presos. E seguirõnos ataa o castelo. E, des aquel dya em deante, foron os mouros escarmentados de non seguir tanto a hoste dos cristãaos.
A partir deste momento, os Sevilhanos estão já quase entregues à sua sorte. O cerco cerra-se cada vez mais. Mas a mortandade dos mouros às mãos de Paio Peres Correia não fica por aqui.
O capítulo DCCCXXIX intitula-se “Como o meestre dom Paae Correa desbaratou o arraiz que partia de Sevilha”. Eis o que aí se escreve:
Conta a estoria que o meestre dom Paae Correa, estando sobre Esmalfarag em seu arreal, ouve novas como sayra de Sevylha huu arraiz e passara a Tyriana por se meter no castello de Esnalfarag. E elle, logo que o soube, foisse meter em çilada. E o arraiz, em passando, sayu o meestne a elle. Pero non se lhe guisou assi como el cuydava, ca estava a çilada muyto longe do logar per onde o arraiz passava. E, depois que o meestre foy descuberto, o arraiz foisse acolhendo o melhor que pôde pero non tam bem que o meestre o nõ encalçasse. Mas era ja preto do castello. E matoulhe nove cavaleiros e derribou elle do cavalo e per pouco nõ foy preso, ca se nõ fora o grande poder dos mouros que lhe acorrerõ, assi dos que estavã no castelo como dos que viinham com elle, todavia el fora preso. Mas desta guisa escapou e meteosse no castello. (...)
No cerco de Sevilha, a tarefa de Paio Peres Correia foi do maior alcance e de grande dificuldade. Talvez por isso, conforme se relata no cap. DCCCXXXIII da Crónica, Fernando III fez uma visita, certamente de cortesia e agradecimento, às tropas do Mestre[4]:
Huu dya aveo que el rei dom Fernando passou Agua d‘Alquivyr e foy veer o meestre dom Paae Correa.
O cerco prolongou-se por quinze penosos meses. Sofreram muito os sitiados, mas sofreram também os sitiantes. Um destes deixou estas expressivas linhas[5]:
Ca las calenturas eram tam fuertes e tan grande el encendimiento, que se morian los omes de gran destemplamiento, ca eram corrompidos del aire, que non parecia sino fuego, y corria tan escalentado como si de los infiernos saliese, y todolos omes andavan todo el dia corriendo por agua del gran calor que fazia, tan bien estando por sombra como andando por fuerza, y por donde quiera que andavam como si en baño estuviessen; y por esta razon y por los grandes quebrantamientos e lacerias que sufrian, perdianse y grandes gentes.
Quando a cidade se rendeu, os Sevilhanos tiveram um mês para se desfazerem dos seus haveres e deixarem a cidade livre. Passaram a África, então, 300.000 mouros andaluzes. [1] Op. cit., pág.440.
[2]
[3] Págs. 441-442.
[4] Pág. 459.
[5] Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, Espasa-Calpe, S.A., Madrid, tomo LV, pág. 878.

Imagens: em cima, La Giralda, a torre árabe da Catedral de Sevilha; depois, a Torre do Ouro, junto ao Guadalquibir, também em Sevilha; em baixo, Paio Peres Correia num medalhão de Salamanca (reparar no Sol, representado ao lado direito da cabeça, como alusão ao "milagre" de Tentudia).